quarta-feira, 16 de junho de 2010
Tudo pode ser diferente aos olhos de quem vê.
Pessoas como ele muitas vezes são vistas como parâmetro para outras que não fazem idéia por exemplo que o conhaque que esquenta sua fria noite é feito de uvas e não de cana.
Estas pessoas dificilmente um dia saberão que além da expressão bon vivant(ita), o cognac também tem origem na frança. Algumas dessas possivelmente nunca farão uma relação entre as palavras conhaque/cognac se não tiverem o privilégio de as verem juntas.
Mas todas estas pessoas têm inveja e desejam em silencio poder em uma noite fria se aquecer com uma garrafa de 240 reais de Cognac Gautier 250 Years, mesmo sem idéia nenhuma de que bebida é esta.
Inveja e desejo do desconhecido até então, reflexo de uma sociedade consumidora e seus ícones de boa vida, seus móveis Futon Company, seus charutos Montecristo e seus Cognacs Gautier. Ícones que de longe parecem ser a essência do bem estar humano.
Essas pessoas, comuns, acostumadas com lojas de varejo, maços de Malboro e cerveja barata deveriam a cada segundo agradecer pela vida rica que levam.
Dizem que o gramado do vizinho sempre é mais verde e a mesa é sempre mais farta, o que não deixa de ser verdade, mais nada disso vale quando em uma noite fria a boca se ocupa com cubanos e lençóis egípcios continuam limpos na cama vazia.
Em uma noite fria um Cognac Gautier tem o mesmo amargor da solidão de qualquer pinga barata.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Olhos Verdes.

Ela sempre me diz que eu sou apaixonado por eles.
Eu sempre digo que não, minto. Invento qualquer outra desculpa, palavras soltas para desviar o foco da questão.
Digo que gosto do seu sorriso, do seu corpo, do seu jeito. Outrora tento levar o assunto para uma sacanagem ou mudo completamente a questão com uma brincadeira, não importa. Qualquer desculpa é valida, já cheguei até a negar que gostasse dela. O importante mesmo é mudar o assunto.
Eu minto, faço isso descaradamente enquanto olho no fundo dos seus olhos verdes.
Na verdade, não vejo e não teria problemas em dizer que gosto de um par de olhos, o quanto são bonitos e que eles carregam Iris com minha cor predileta e que por isso os amo, apenas não faço isso, e nem eu mesmo sei por quê.
Pode ser que seja apenas uma brincadeira nossa, um jeito inocente de uma garota pedir elogios e um garoto ainda mais inocente fingir orgulho.
Eu digo que é apenas uma idiotice sem sentido.
Outros dizem que eu a amo e tenho medo de assumir.
Ela não diz nada a respeito.
Eu realmente gosto dela, isso ela sabe, eu já disse.
Se a amo, não sei.
A única certeza que tenho é que nunca em nenhum momento assumi gostar dos seus olhos.
Obs: Talvez um diga eu diga e vocês me desculpem, mas não vai ser por aqui, terei de fazer isso olhando o mais lindo par de olhos que conheço.
sábado, 3 de abril de 2010
Imaginem o mundo "perfeito".
Se não houvesse países, nem nada para lutar ou morrer, se não existissem religiões.
E se todas as pessoas pudessem e vivessem em paz, se todos fossem sonhadores e o mundo então vivesse como um só.
E se não existissem posses, ganância ou fome? Se fossemos como uma irmandade e compartilhássemos o mundo?
Imaginem, por um momento, se todas essas coisas acontecessem tudo o que o mundo iria ganhar e tudo que iria perder.
Imaginem, por um instante, se todos os problemas atuais na terra por ventura chegassem ao fim, acredito que tudo aparentemente seria perfeito, mesmo sem saber o rumo a qual tomaríamos.
Imaginem, somente por alguns segundos, o que poderíamos prever do mundo perfeito.
Eu fechei meus olhos e sem me aprofundar muito me dei conta de que se tudo isso realmente acontecer, uma música fará mais sentido do que jamais fez, será eternizada como um hino de vitória, reconquistando seu lugar nos rankings e rádios por todo mundo.
E se isso acontecer, aí sim teremos um grande problema.
quinta-feira, 25 de março de 2010
Eu tenho medo de borboletas.
Existem pessoas também, loucas e desesperadas, com medo da morte. Existem paredes, correntes e soldados armados.
Não existe fé ou esperança, aqui não existe felicidade ou amor. Aqui só existe o medo o frio e a fome.
Não temos comida.
O segredo para manter a mente sã é manter a cabeça vazia, tento não pensar em nada, exceto que tem uma mariposa ali e que irão me assassinar.
Tenho uma janela sem vista ao alto, um buraco no canto direito para as necessidades, um banco de madeira fixado na parede esquerda, talhado nele existe uma cruz e algumas palavras, ainda não as li, talvez por não ser religioso ou muito provavelmente por que é ali que a mariposa descansa, não sei se está viva, provavelmente não.
Minha cela está vazia, estou aqui há dois dias e conheço cada centímetro dela mais do que conheço meu próprio corpo.
Os gritos de socorro me mostram que há pelo menos mais 15 prisioneiros.
Os gritos de desespero me mostram seus desejos, suas dores e histórias.
Seus silêncios me lembram da morte.
Mais dois dias se passaram, pelas minhas contas hoje somos 13.
Mais um dia e o silêncio se torna cada vez maior, acredito estarmos em 10 ou menos, ouvi tiros ontem à noite.
Trazem-me comida, como um pouco e tento racionar o restante em vão, pouco tempo depois voltam para me tirar o que sobrou.
É possível ver o tempo passar pela luz que entra pelo sujo vidro da janela, não que o tempo me interesse, mas tenho medo da mariposa que divide a cela comigo e esta se move sempre para a luz.
As marcas no banco foram talhadas a unha, é o salmo 23:
O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
guia-me mansamente às águas tranquilas;
Refrigera a minha alma,
guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome,
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte
não temeria mal algum, porque tu estás comigo.
O Salmo termina na metade, pode ser que quem esteve aqui não pode completar sua obra, duvido, minha teoria é que ao escrevê-lo a pessoa percebeu que estas palavras simplesmente não têm valor quando realmente se precisa delas.
Ao passar dos dias você aprende que o silêncio pode ser muito mais aterrorizante que os gritos.Estou aqui a quase duas semanas e acredito estarmos em três hoje. A porta se abre e um homem sem muito esforço me puxa para fora da cela, eu sei que minha hora chegou, sinto-me aliviado. Não temo mais a morte, mas tenho medo de borboletas e tem uma mariposa bem ali.
sexta-feira, 19 de março de 2010
Os mais fortes sobrevivem.
Nós da comunidade já nos acostumamos à vida assim, tráfico, violência e miséria são problemas enfrentamos diariamente, eu sei que você lendo isso parece um absurdo, mas se formos fazer uma comparação vocês teriam isso como desafios cotidianos, algo como transito, assistências técnicas ou filas no banco. São desagradáveis, mas dá para acostumar.
Às vezes nós temos fome. Às vezes vocês não têm uma mistura no almoço.
Raramente algum jovem morre prematuramente em sua sociedade, na nossa, alguns raramente sobrevivem.
A história mostra que não importa o local ou a época sempre há de existir um povo para ser oprimido, e por não podermos pagar por mais nada estamos pagando por esse fardo.
Vivemos em uma realidade diferente da sociedade, não vivemos a natureza humana. Classificam assim nossa condição por que têm medo de nos chamarem de subumanos, na realidade acreditam que somos animais e nos tratam de tal modo, usando de causas sociais e sentimento humanitário para alimentar suas estimações.
Esse é nosso meio de vida, assim vamos vivendo, sobrevivendo.
Como já disse as drogas, a fome, os tiros, as mortes, lá fora junto todos os demais problemas apresentados e assistido por vocês na televisão não são tão ruim como aparentam, não são tão ruim, pois são os problemas dos outros, o real problema é quanto tudo isso deixa de estar lá fora e passa a existir dentro da sua casa, ai a coisa começa a ficar feia para todo mundo.
É de natureza humana criar estereótipos, e pelo que dá para perceber vocês passam a idéia que nos da comunidade somos unidos, que gostamos e nos ajudamos uns aos outros, isso é mentira, apenas uma maneira de nos rebaixar como um todo, a verdade, é que somos egoístas, cada um aqui faria de tudo para sair dessa situação, nós apenas ainda não nos matamos uns aos outros pelo simples fato de que aqui não ter pelo que matar.
O problema é que precisamos sobreviver, o fato de sermos oprimidos não nos torna mais fracos, acredito que pelo contrário, somos fortes, temos mais condições para lutarmos por nossa sobrevivência, tantos anos tratados como animais nós levaram a pensar e agir como animais? Talvez. Temos instintos de caça, instintos de sobrevivência e como animais não temos razão ou moral. É a seleção natural moderna, e cada um faz o seu melhor para sobreviver.
Eu sinceramente peço que não me julgue, estou tentando expor minha situação para o senhor, na realidade somos todos animais, todos temos instintos e ao mesmo tempo todos somos humanos e temos coesão.
A diferença que nos leva no modo de agir é somente nosso habitat vocês deixaram de viver na selva, nós ainda não.
Porém nossa a essência é a mesma e com base nisso sei que como eu você dividimos de instintos paternos, e se estou correto o senhor será coeso o suficiente para ficar em silencio e na hora certa pagará o valor pedido para ter sua filha de volta.
Entrarei em contato.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Com a boca no Gatilho - Parte 2
Mas ele é fraco, ele a ama.
Com as crianças passando o fim de semana na casa da avó seu desejo era de que pudesse passar uma noite inesquecível com a mulher, vinho, musica romântica, sexo. Jurou a si mesmo que iria foder ela como nunca fodeo com outra, iria lhe dizer que a perdoava, iria lhe fazer carinhos madrugada adentro e daria um presente cujo qual ela nunca poderia esquecer: Uma bala na cabeça.
Em seus pensamentos tudo era perfeito, mas a realidade era contrária aos seus sonhos, na realidade ele era um fodido.
Suas crianças não voltariam para casa. Sua mulher esta noite provavelmente irá foder com outro homem de uma maneira que com certeza que ele nunca conseguiria e sabe que o máximo de romantismo que conseguiria ter seria uma punheta bem batida.
Fodido ou não está é sua noite, esta é sua oportunidade e este é seu momento. Volta à escrivaninha , substitui o vinho por outro copo de cachaça, coloca sem pressa sua única bala no velho 38, e o som do tambor girando cria música onde antes só havia respiração.
Uma mão carrega o tambor enquanto a outra tenta carregar a alma de coragem. Começa encontrar prazer na bebida barata que agora mais rapidamente vai se esvaziando do seu copo e por um instante acredita ter encontrado a solução para seus problemas, por um instante acredita ter encontrado a solução para todos os problemas do mundo, apenas por um instante, apenas por mais um momento de fraqueza.
Com poucos orgulhos na vida ele não desiste da decisão, era ele ou ela, não suportaria a idéia de um mundo onde um dos dois estivesse vivo, mas ele é fraco, ele a ama e como um dos dois tinha de morrer resolveu salvar a vida de sua amada tirando a própria, tudo isso parece muito bonito, muito poético e seria se sua escolha não se baseasse também no fato dele ser um fodido e sua vida ser uma merda.
A música para.
Seu braço calmamente levanta o revolver até a altura da cabeça, o tambor aponta a região do crânio acima da orelha tirando qualquer visão que poderia ter da cena. Suas mãos tremem e evidenciam o quanto é fraco, toma mais um trago sabendo que nada adiantará. Arrepende-se de ter apenas uma bala, com uma bala no tambor sua chance de sobreviver ao primeiro disparo é de 5 em 6.
Clack.
Não foi desta vez que pode descobrir o quanto a bala quente se distingue do gatilho frio.
Ele não suporta a dor de viver sem ela, ele não suporta a dor de ter sido traído.
Ele é fraco, ele a ama.
Apenas mais um trago.
Apenas mais uma chance.
Apenas mais uma nota. BAM.
Apenas mais uma vida.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Te aguardo na plataforma nove.
Por traz de todo conhecimento técnico, todos os roteiros fantásticos, os documentários, por traz de toda moda alternativa, todo falso e real intelectualismo, daquela cena que você considera um clássico do lirismo moderno, por traz de toda filosofia cinematográfica, estão os clichês.
Muitos "amantes" do cinema podem me criticar, mas difícil não é entender (com exceção de island empire) as maluquices de David Lynch ou a perturbada Psicologia de Von Trier, difícil mesmo são entender os clichês. Os clichês são o que nos filmes, enxergo maior proximidade à vida. A grande maioria de nós nunca esteve em uma guerra, nunca cometeu assassinatos ou teve de salvas os estados unidos da América, mas acredito que quase a totalidade das pessoas aqui já gostou de outra pessoa e acabou se sentindo triste por causa de um fato ou outro, algumas como eu até acabaram escrevendo sobre isso.
Não sei se aprendizado seria a palavra correta, sentir talvez caísse melhor, pois foi sentir e pensar em um clichê que me levou a fazer a comparação.
Um dos maiores clichês existentes se referem a presidiários e diz que todos na cadeia são inocentes, salvas as devidas proporções, os que realmente são inocentes entendem como estou me sentindo e sabem que quando culpado é muito mais fácil se defender por poder criar o argumento que bem entender já que sua defesa é baseada em mentiras, enquanto nós inocentes só contamos com a verdade.
Certamente aprendizado não seria a palavra correta.
Romances, estes são recheados de clichês e a vida é recheada de romances, talvez alguns diretores consigam transformar amores em clichê, mas nenhum clichê poderá um dia definir o amor, a amizade, o bem que uma pessoa pode fazer a outra, por isso é difícil entender os clichês , eles são carregados de sentimentos, e sentir é muito mais difícil que aprender.
Sentir definitivamente é a palavra correta.
Racionalmente eu não pegaria um vôo atrás de alguém que está partindo, não pediria desculpas que acredito não serem necessárias, não faria nenhuma maluquice que aprendi na sessão da tarde, acredito que quase ninguém faria isso, se fizesse foi por que aprendeu ao invés de sentir, eu estou sentindo e estou fazendo o acredito ser o equivalente a essas maluquices na vida real, tentando explicar o inexplicável através de palavras.
E se a vida pode tirar algo dos clichês, eu espero que no final de tudo certo entre nós.
Desça do avião estou esperando.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Desejo.
Ela não sabe o que quer,o que pensa, o que sente.
Se são saudades, lembranças ou desejos.
Atordoada em seus pensamentos tenta se definir em uma posição que só a ela cabe definir, a ela, e talvez a ele.
Sente saudades dele, e do romance que nunca tiveram.
Tenta inutilmente pensar sobre a idéia que este tem sobre eles, desiste acreditando ser impossível uma pessoa que não consegue entender os próprios sentimentos conseguir decifrar os dos outros.
O beijo que deram ainda não foi o suficiente para criar um romance, mas a umidade de seus lábios com leve gosto de cerveja não saíram de suas lembranças.
Quantas lembranças boas com ele, um filme no fim de tarde, um abraço na chuva, uma piada idiota seguida de um sorriso lindo.
A felicidade trazida pelas lembranças partem com a chegada de uma pontada de trizteza no peito, ela não quer viver de lembranças passadas quer novos momentos. Momentos novos,melhores e mais intensos, com ele.
Sua cabeça ainda viaja em pensamentos, planos, sentimentos. Quanto mais pensa, mais confusa fica.
Ela sabe que não o ama.
Recusa-se a tomar uma resposta final que ela mesma já conhecia e prefere se remoer em esperanças, angustias. Prefere fingir não saber o que quer, disfarçar o que pensa e esconder o que sente. Sabe que não sente saudades e que as lembranças são apenas desculpas para o coração. O que realmente meche com ela é o desejo.
Ela sabe que não o ama, mas deseja.
Uma coisa que ela não sabe, é que ele sente o mesmo.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O filho da puta
(Luis Fernando Verissimo)
Ele era um filho da puta, um verdadeiro filho da puta e dos bons, não daquele tipo odiado por todos, esse tipo que se queima em todos os círculos sociais e acaba sumindo uma hora ou outra, era do tipo odiado apenas por alguns, sem exageros, apenas o suficiente para ser um bom filho da puta.
Tirando suas necessárias divergências o filho da puta era muito bem aceito nas rodinhas. Não tinha dinheiro, não era muito educado, não era feio, mas também não era muito bonito, vendo assim não tinha nada que se chamasse atenção nele, porém era conhecido por muitos e sempre quase considerado bem vindo, os garotos adoravam suas histórias, o invejavam, queriam ser filhos da puta como ele.
As garotas, ah, as garotas eram um caso a parte, na verdade essas são donas de 80% de suas histórias e cerca de 99% de seus inimigos.
Ser filho da puta é uma arte e como dizem por ai todo artista precisa de uma musa inspiradora, um filho da puta precisa de muitas, as garotas, estas são simplesmente a razão dele se tornar e continuar sendo um filho da puta. Não consegue entender o porquê, acredita que nem elas realmente saibam, mas se uma coisa ele aprendeu é que toda garota gosta de um filho da puta.
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Filho da puta esse não surgiu em um ápice de raiva, mas sim por um histórico, uma evolução que além de atitudes e pensamentos carrega em si um estado de espírito, uma filosofia, algo como um filho da puta lifestyle. Sempre lembrado nas conversas de bar, sempre com entonação da voz ao ser lembrado, “Nossa ele foi muito filho da puta nessa”, longe de estar sendo insultado ao contrário, um filho da puta de verdade toma isso como elogio.
Um verdadeiro filho da puta sente orgulho de ser filho da puta.
Suas histórias, digníssimas filhas da putagem, não são feitas para serem criticadas, muito longe para serem analisadas, não são histórias de caráter não são para serem seguidas. São para serem ouvidas, admiradas e transmitidas até virarem lendas urbanas.
Cada filha da putagem cometida tem a cara do seu filho da puta e acreditem para o filho da puta não a nada melhor do que sentar no bar para tomar uma cerveja, ouvir uma história aleatória terminar com “isso sim é ser filho da puta”, calmamente erguer o copo tomar um gole e abrir um meio sorriso com o sentimento de dever cumprido.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Com a boca no Gatilho - Parte 1
Nunca foi de beber, mas lhe agradaria muito uma garrafa de whisky ao lugar da cachaça, assim ele tinha imaginado, assim ele havia visto na TV.
Ele toma mais um trago curto e seco da cachaça, sente a garganta e o estomago não acostumado a beber reclamar da qualidade da bebida, deseja novamente um belo copo de Whisky, mas desfaz esse pensamento com o consentimento de que o pouco dinheiro que tinha foi bem gasto no velho 38.
Um longo gole parece lhe amaciar o estomago, a garganta ainda parece rejeitar a bebida quente.
Levanta-se, enche o copo de bebida, não ousa levá-lo aos lábios, caminha calmamente pelo cômodo em direção a uma gaveta no criado-mudo e com cuidado desembrulha de uma velha flanela a única bala que possui para carregar o revolver, não que ele não pudesse adquirir outras, mas sim pela certeza que quanto maior o número de balas, maior seria o número de mortes. Por alguns instantes que não poderia dizer se foram minutos ou segundos ele se pega pensando se seria capaz de cometer assassinato, acredita que não, mas sente-se aliviado em ter em suas mãos uma única bala e esta com destino certo.
Dobra a flanela, guarda e fecha a gaveta, após tomar a maior decisão de sua vida ainda mesmo que irracionalmente cumpre ordens de sua mulher e não consegue deixar o quarto desarrumado, abre exceção ao tombar os porta-retratos com as fotos dos filhos, que fixam um olhar de pena ao pai, com lágrimas nos olhos vira às costas a procura do copo da bebida. Esquece o retrato da mulher ainda ereto sobre o criado mudo, propositalmente.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Felicidade
Não sou contra a felicidade, muito pelo contrário, a felicidade é tão pura, tão rara, tão linda que é um disperdício ser escrita.
A felicidade é feita para ser vivida.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Acidentes
Algumas pessoas gostam de números, como se eles dessem vivacidade aos fatos, enfim, caso você seja um vou tentar assimilar a situação, uma grande metrópole, população na faixa entre oito e nove milhões de seres humanos cujo cerca de cinquenta mil deles morrem a cada mês, estatísticas.
Cinquenta mil mortos ao mês, cinquenta mil e dizem que a maioria das mortes não são esperadas, não são idosos, enfermos, cancerígenos ou essas bichas aidéticas que vemos andando por ai, são acidentes, apenas uma das formas da natureza dizer que não somos bem vindos a este mundo.
Convivemos com estes acidentes todos os dias, a todo o momento, um médico pedófilo é morto por uma bala perdida em meio ao caos das seis da tarde, isto se podemos chamar a bala de perdida, outro acidente, acontece a toda hora e preferimos ignorar.
A maioria das pessoas, mesmo as que gostam de números desconhecem desta estatística, um advogado corrupto cai de sua cobertura, fora o sangue espalhado na calçada de um bairro nobre, nenhum alarde.
Faz parte da natureza humana e já se incorporou ao clima da cidade, não é errado, é o famoso nem fede nem cheira, as pessoas morrem, é natural e as outras pessoas simplesmente não ligam quem iria ligar para um traficante que acidentalmente teve uma overdose com uma droga supostamente adulterada, não há como existir compaixão quando o cadáver ainda sangra sobre os montes de pó que um dia foram brancos.
Um menor delinqüente, trombadinha, é encontrado morto com o saco de cola na mão esquerda e a faca que costumava empunhar na direita descansa agora em seu peito. Acidente.
Pai de família, três filhos, farmacêutico, classe média, suposto infarto, encontrado morto na casa da amante. Acidente.
Foram poucos os que encontrei de que como eu conseguiram enxergar os detalhes, atos e filosofias que podem estar escondidas por traz das mortes que a maioria não têm idéia da existência. É capaz que no inconsciente geral elas estejam implícitas, mas é mais cômodo serem ignoradas.
Uma criança que caçava e brincava com seus gatos. Acidente.
Um padre que caçava e brincava com suas crianças. Acidente.
Talvez as pessoas não sejam tão inocentes talvez elas saibam de tudo, talvez elas realmente ignorem, talvez não.
Um assassinato a balas. Acidente.
Um filé a parmegiana envenenado. Acidente.
No mês passado, com certeza, 35 mortes foram acidentes.
Talvez um dia as pessoas comecem a reparar melhor, talvez elas reconheçam todas as outras vidas que acontecem paralelas as suas e talvez apareçam com piedade, ou não. É possível que pensem igual a mim, não sei. Talvez um dia surjam testemunhas e os acidentes deixem de ser acidentes, mas até lá eu continuo, não existe o porque parar quando o bem esta sendo feito para milhões de pessoas. E uma coisa que todos sabem é que em uma grande metrópole alguns acidentes são inevitáveis.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Publicitários.
Não somos artistas.
Não somos romancistas.
Somos um pouco melhores que ladrões e assasinos.
Um pouco piores que a maioria dos politicos.
Estamos no limite entre Deuses e meros filhos da puta.
Somos Publicitários.
E só.
Apenas Palavras.
Desculpem-me, as poucas palavras deste pobre velho, mas muitas delas perderam seus significados ao longo de todos estes anos. Mesmo algumas, eram mais do que palavras, modos de vida, eram sentimentos que foram se degradando junto a mim neste inexplicável fator que denominamos tempo.
Há muito, decidi abandonar tudo, coisas sem significado para mim hoje, a maioria já me fugiu da memória, tinham algo a ver com dinheiro, carros, família e biscoitos de polvilho, coisas do gênero, coisas sem importância real.
Nessa época me chamavam de aventureiro.
Hoje acredito ter tudo que preciso, minha cabana, alguns antigos cigarros restantes e minha companhia, tudo o mais que me for necessário a natureza é capaz de me ceder, sem muitas “coisas”, somente o que é realmente importante o que realmente tem significado.
Hoje me chamam de louco.
Poucas pessoas costumam vir até aqui, ainda bem. Porém, inevitavelmente atraiu corriqueiramente algumas visitas indesejadas, pessoas, muitas que insistem em me dizer que me faltam as palavras que sumiram junto ao corpo e a mente jovem que um dia cheguei a ter.
Uma mulher colhendo frutos me diz que eu não tenho amor. Não sei o que é o amor.
Um caçador questiona se não tenho saudades. Não faço a mínima noção do que seja saudades.
Um filho da puta vem bater em minha porta só para dizer que não tenho culhões, expulso a bicudas o desgraçado, sei muito bem o que são culhões.
Um pedinte me pede caridade, outros insistem em palavras como respeito, dignidade, carinho, paixão, filhos, ajuda, uma criança pede minha amizade, não sei mais o significado de amizade.
Nada do que estas pessoas possam me dizer ou apresentar vai mudar o que penso, se posso dizer que ainda penso. Eu já me adaptei a cabana e a cabana já se adaptou a mim. Besteiras, desculpas, sou apenas um velho querendo passar o pouco que lhe resta consigo mesmo, sem companhias, sem amizades, sem amor, apenas eu.
A verdade é que nada disso me interessa, tenho noção que já tive um pouco disso tudo e abri mão quando decidi me excluir do mundo a procura de uma única palavra, palavra esta que agora conheço muito bem. Palavra esta que na simples opinião deste pobre velho vocês nunca vão conhecer.
Paz.