Moro em uma cidade grande, daquelas onde há milhões e milhões de habitantes vivendo suas vidas inúteis na grande colméia de ferro e concreto. Vivendo e morrendo.
Algumas pessoas gostam de números, como se eles dessem vivacidade aos fatos, enfim, caso você seja um vou tentar assimilar a situação, uma grande metrópole, população na faixa entre oito e nove milhões de seres humanos cujo cerca de cinquenta mil deles morrem a cada mês, estatísticas.
Cinquenta mil mortos ao mês, cinquenta mil e dizem que a maioria das mortes não são esperadas, não são idosos, enfermos, cancerígenos ou essas bichas aidéticas que vemos andando por ai, são acidentes, apenas uma das formas da natureza dizer que não somos bem vindos a este mundo.
Convivemos com estes acidentes todos os dias, a todo o momento, um médico pedófilo é morto por uma bala perdida em meio ao caos das seis da tarde, isto se podemos chamar a bala de perdida, outro acidente, acontece a toda hora e preferimos ignorar.
A maioria das pessoas, mesmo as que gostam de números desconhecem desta estatística, um advogado corrupto cai de sua cobertura, fora o sangue espalhado na calçada de um bairro nobre, nenhum alarde.
Faz parte da natureza humana e já se incorporou ao clima da cidade, não é errado, é o famoso nem fede nem cheira, as pessoas morrem, é natural e as outras pessoas simplesmente não ligam quem iria ligar para um traficante que acidentalmente teve uma overdose com uma droga supostamente adulterada, não há como existir compaixão quando o cadáver ainda sangra sobre os montes de pó que um dia foram brancos.
Um menor delinqüente, trombadinha, é encontrado morto com o saco de cola na mão esquerda e a faca que costumava empunhar na direita descansa agora em seu peito. Acidente.
Pai de família, três filhos, farmacêutico, classe média, suposto infarto, encontrado morto na casa da amante. Acidente.
Foram poucos os que encontrei de que como eu conseguiram enxergar os detalhes, atos e filosofias que podem estar escondidas por traz das mortes que a maioria não têm idéia da existência. É capaz que no inconsciente geral elas estejam implícitas, mas é mais cômodo serem ignoradas.
Uma criança que caçava e brincava com seus gatos. Acidente.
Um padre que caçava e brincava com suas crianças. Acidente.
Talvez as pessoas não sejam tão inocentes talvez elas saibam de tudo, talvez elas realmente ignorem, talvez não.
Um assassinato a balas. Acidente.
Um filé a parmegiana envenenado. Acidente.
No mês passado, com certeza, 35 mortes foram acidentes.
Talvez um dia as pessoas comecem a reparar melhor, talvez elas reconheçam todas as outras vidas que acontecem paralelas as suas e talvez apareçam com piedade, ou não. É possível que pensem igual a mim, não sei. Talvez um dia surjam testemunhas e os acidentes deixem de ser acidentes, mas até lá eu continuo, não existe o porque parar quando o bem esta sendo feito para milhões de pessoas. E uma coisa que todos sabem é que em uma grande metrópole alguns acidentes são inevitáveis.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
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