quinta-feira, 25 de março de 2010

Eu tenho medo de borboletas.

Tem uma mariposa ali.

Existem pessoas também, loucas e desesperadas, com medo da morte. Existem paredes, correntes e soldados armados.

Não existe fé ou esperança, aqui não existe felicidade ou amor. Aqui só existe o medo o frio e a fome.

Não temos comida.

O segredo para manter a mente sã é manter a cabeça vazia, tento não pensar em nada, exceto que tem uma mariposa ali e que irão me assassinar.

Tenho uma janela sem vista ao alto, um buraco no canto direito para as necessidades, um banco de madeira fixado na parede esquerda, talhado nele existe uma cruz e algumas palavras, ainda não as li, talvez por não ser religioso ou muito provavelmente por que é ali que a mariposa descansa, não sei se está viva, provavelmente não.

Minha cela está vazia, estou aqui há dois dias e conheço cada centímetro dela mais do que conheço meu próprio corpo.

Os gritos de socorro me mostram que há pelo menos mais 15 prisioneiros.
Os gritos de desespero me mostram seus desejos, suas dores e histórias.
Seus silêncios me lembram da morte.

Mais dois dias se passaram, pelas minhas contas hoje somos 13.

Mais um dia e o silêncio se torna cada vez maior, acredito estarmos em 10 ou menos, ouvi tiros ontem à noite.

Trazem-me comida, como um pouco e tento racionar o restante em vão, pouco tempo depois voltam para me tirar o que sobrou.

É possível ver o tempo passar pela luz que entra pelo sujo vidro da janela, não que o tempo me interesse, mas tenho medo da mariposa que divide a cela comigo e esta se move sempre para a luz.

As marcas no banco foram talhadas a unha, é o salmo 23:

O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.
Deitar-me faz em verdes pastos,
guia-me mansamente às águas tranquilas;
Refrigera a minha alma,
guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome,
Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte
não temeria mal algum, porque tu estás comigo.


O Salmo termina na metade, pode ser que quem esteve aqui não pode completar sua obra, duvido, minha teoria é que ao escrevê-lo a pessoa percebeu que estas palavras simplesmente não têm valor quando realmente se precisa delas.

Ao passar dos dias você aprende que o silêncio pode ser muito mais aterrorizante que os gritos.Estou aqui a quase duas semanas e acredito estarmos em três hoje. A porta se abre e um homem sem muito esforço me puxa para fora da cela, eu sei que minha hora chegou, sinto-me aliviado. Não temo mais a morte, mas tenho medo de borboletas e tem uma mariposa bem ali.

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