Desculpem-me, as poucas palavras deste pobre velho, mas muitas delas perderam seus significados ao longo de todos estes anos. Mesmo algumas, eram mais do que palavras, modos de vida, eram sentimentos que foram se degradando junto a mim neste inexplicável fator que denominamos tempo.
Há muito, decidi abandonar tudo, coisas sem significado para mim hoje, a maioria já me fugiu da memória, tinham algo a ver com dinheiro, carros, família e biscoitos de polvilho, coisas do gênero, coisas sem importância real.
Nessa época me chamavam de aventureiro.
Hoje acredito ter tudo que preciso, minha cabana, alguns antigos cigarros restantes e minha companhia, tudo o mais que me for necessário a natureza é capaz de me ceder, sem muitas “coisas”, somente o que é realmente importante o que realmente tem significado.
Hoje me chamam de louco.
Poucas pessoas costumam vir até aqui, ainda bem. Porém, inevitavelmente atraiu corriqueiramente algumas visitas indesejadas, pessoas, muitas que insistem em me dizer que me faltam as palavras que sumiram junto ao corpo e a mente jovem que um dia cheguei a ter.
Uma mulher colhendo frutos me diz que eu não tenho amor. Não sei o que é o amor.
Um caçador questiona se não tenho saudades. Não faço a mínima noção do que seja saudades.
Um filho da puta vem bater em minha porta só para dizer que não tenho culhões, expulso a bicudas o desgraçado, sei muito bem o que são culhões.
Um pedinte me pede caridade, outros insistem em palavras como respeito, dignidade, carinho, paixão, filhos, ajuda, uma criança pede minha amizade, não sei mais o significado de amizade.
Nada do que estas pessoas possam me dizer ou apresentar vai mudar o que penso, se posso dizer que ainda penso. Eu já me adaptei a cabana e a cabana já se adaptou a mim. Besteiras, desculpas, sou apenas um velho querendo passar o pouco que lhe resta consigo mesmo, sem companhias, sem amizades, sem amor, apenas eu.
A verdade é que nada disso me interessa, tenho noção que já tive um pouco disso tudo e abri mão quando decidi me excluir do mundo a procura de uma única palavra, palavra esta que agora conheço muito bem. Palavra esta que na simples opinião deste pobre velho vocês nunca vão conhecer.
Paz.
Muito bom! Expressa o que eu sinto as vezes no meio de toda a correria, da poluição, dos trampos, dos encontros e desencontros: fugir e passar um tempo no meio da natureza. Paz a todos! Rs..
ResponderExcluir"Eu já me adaptei a cabana e a cabana já se adaptou a mim."
ResponderExcluirsoa como uma boa metáfora, gostei do texto, já te disse! =D