sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O filho da puta
(Luis Fernando Verissimo)
Ele era um filho da puta, um verdadeiro filho da puta e dos bons, não daquele tipo odiado por todos, esse tipo que se queima em todos os círculos sociais e acaba sumindo uma hora ou outra, era do tipo odiado apenas por alguns, sem exageros, apenas o suficiente para ser um bom filho da puta.
Tirando suas necessárias divergências o filho da puta era muito bem aceito nas rodinhas. Não tinha dinheiro, não era muito educado, não era feio, mas também não era muito bonito, vendo assim não tinha nada que se chamasse atenção nele, porém era conhecido por muitos e sempre quase considerado bem vindo, os garotos adoravam suas histórias, o invejavam, queriam ser filhos da puta como ele.
As garotas, ah, as garotas eram um caso a parte, na verdade essas são donas de 80% de suas histórias e cerca de 99% de seus inimigos.
Ser filho da puta é uma arte e como dizem por ai todo artista precisa de uma musa inspiradora, um filho da puta precisa de muitas, as garotas, estas são simplesmente a razão dele se tornar e continuar sendo um filho da puta. Não consegue entender o porquê, acredita que nem elas realmente saibam, mas se uma coisa ele aprendeu é que toda garota gosta de um filho da puta.
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Filho da puta esse não surgiu em um ápice de raiva, mas sim por um histórico, uma evolução que além de atitudes e pensamentos carrega em si um estado de espírito, uma filosofia, algo como um filho da puta lifestyle. Sempre lembrado nas conversas de bar, sempre com entonação da voz ao ser lembrado, “Nossa ele foi muito filho da puta nessa”, longe de estar sendo insultado ao contrário, um filho da puta de verdade toma isso como elogio.
Um verdadeiro filho da puta sente orgulho de ser filho da puta.
Suas histórias, digníssimas filhas da putagem, não são feitas para serem criticadas, muito longe para serem analisadas, não são histórias de caráter não são para serem seguidas. São para serem ouvidas, admiradas e transmitidas até virarem lendas urbanas.
Cada filha da putagem cometida tem a cara do seu filho da puta e acreditem para o filho da puta não a nada melhor do que sentar no bar para tomar uma cerveja, ouvir uma história aleatória terminar com “isso sim é ser filho da puta”, calmamente erguer o copo tomar um gole e abrir um meio sorriso com o sentimento de dever cumprido.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Com a boca no Gatilho - Parte 1
Nunca foi de beber, mas lhe agradaria muito uma garrafa de whisky ao lugar da cachaça, assim ele tinha imaginado, assim ele havia visto na TV.
Ele toma mais um trago curto e seco da cachaça, sente a garganta e o estomago não acostumado a beber reclamar da qualidade da bebida, deseja novamente um belo copo de Whisky, mas desfaz esse pensamento com o consentimento de que o pouco dinheiro que tinha foi bem gasto no velho 38.
Um longo gole parece lhe amaciar o estomago, a garganta ainda parece rejeitar a bebida quente.
Levanta-se, enche o copo de bebida, não ousa levá-lo aos lábios, caminha calmamente pelo cômodo em direção a uma gaveta no criado-mudo e com cuidado desembrulha de uma velha flanela a única bala que possui para carregar o revolver, não que ele não pudesse adquirir outras, mas sim pela certeza que quanto maior o número de balas, maior seria o número de mortes. Por alguns instantes que não poderia dizer se foram minutos ou segundos ele se pega pensando se seria capaz de cometer assassinato, acredita que não, mas sente-se aliviado em ter em suas mãos uma única bala e esta com destino certo.
Dobra a flanela, guarda e fecha a gaveta, após tomar a maior decisão de sua vida ainda mesmo que irracionalmente cumpre ordens de sua mulher e não consegue deixar o quarto desarrumado, abre exceção ao tombar os porta-retratos com as fotos dos filhos, que fixam um olhar de pena ao pai, com lágrimas nos olhos vira às costas a procura do copo da bebida. Esquece o retrato da mulher ainda ereto sobre o criado mudo, propositalmente.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Felicidade
Não sou contra a felicidade, muito pelo contrário, a felicidade é tão pura, tão rara, tão linda que é um disperdício ser escrita.
A felicidade é feita para ser vivida.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Acidentes
Algumas pessoas gostam de números, como se eles dessem vivacidade aos fatos, enfim, caso você seja um vou tentar assimilar a situação, uma grande metrópole, população na faixa entre oito e nove milhões de seres humanos cujo cerca de cinquenta mil deles morrem a cada mês, estatísticas.
Cinquenta mil mortos ao mês, cinquenta mil e dizem que a maioria das mortes não são esperadas, não são idosos, enfermos, cancerígenos ou essas bichas aidéticas que vemos andando por ai, são acidentes, apenas uma das formas da natureza dizer que não somos bem vindos a este mundo.
Convivemos com estes acidentes todos os dias, a todo o momento, um médico pedófilo é morto por uma bala perdida em meio ao caos das seis da tarde, isto se podemos chamar a bala de perdida, outro acidente, acontece a toda hora e preferimos ignorar.
A maioria das pessoas, mesmo as que gostam de números desconhecem desta estatística, um advogado corrupto cai de sua cobertura, fora o sangue espalhado na calçada de um bairro nobre, nenhum alarde.
Faz parte da natureza humana e já se incorporou ao clima da cidade, não é errado, é o famoso nem fede nem cheira, as pessoas morrem, é natural e as outras pessoas simplesmente não ligam quem iria ligar para um traficante que acidentalmente teve uma overdose com uma droga supostamente adulterada, não há como existir compaixão quando o cadáver ainda sangra sobre os montes de pó que um dia foram brancos.
Um menor delinqüente, trombadinha, é encontrado morto com o saco de cola na mão esquerda e a faca que costumava empunhar na direita descansa agora em seu peito. Acidente.
Pai de família, três filhos, farmacêutico, classe média, suposto infarto, encontrado morto na casa da amante. Acidente.
Foram poucos os que encontrei de que como eu conseguiram enxergar os detalhes, atos e filosofias que podem estar escondidas por traz das mortes que a maioria não têm idéia da existência. É capaz que no inconsciente geral elas estejam implícitas, mas é mais cômodo serem ignoradas.
Uma criança que caçava e brincava com seus gatos. Acidente.
Um padre que caçava e brincava com suas crianças. Acidente.
Talvez as pessoas não sejam tão inocentes talvez elas saibam de tudo, talvez elas realmente ignorem, talvez não.
Um assassinato a balas. Acidente.
Um filé a parmegiana envenenado. Acidente.
No mês passado, com certeza, 35 mortes foram acidentes.
Talvez um dia as pessoas comecem a reparar melhor, talvez elas reconheçam todas as outras vidas que acontecem paralelas as suas e talvez apareçam com piedade, ou não. É possível que pensem igual a mim, não sei. Talvez um dia surjam testemunhas e os acidentes deixem de ser acidentes, mas até lá eu continuo, não existe o porque parar quando o bem esta sendo feito para milhões de pessoas. E uma coisa que todos sabem é que em uma grande metrópole alguns acidentes são inevitáveis.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Publicitários.
Não somos artistas.
Não somos romancistas.
Somos um pouco melhores que ladrões e assasinos.
Um pouco piores que a maioria dos politicos.
Estamos no limite entre Deuses e meros filhos da puta.
Somos Publicitários.
E só.
Apenas Palavras.
Desculpem-me, as poucas palavras deste pobre velho, mas muitas delas perderam seus significados ao longo de todos estes anos. Mesmo algumas, eram mais do que palavras, modos de vida, eram sentimentos que foram se degradando junto a mim neste inexplicável fator que denominamos tempo.
Há muito, decidi abandonar tudo, coisas sem significado para mim hoje, a maioria já me fugiu da memória, tinham algo a ver com dinheiro, carros, família e biscoitos de polvilho, coisas do gênero, coisas sem importância real.
Nessa época me chamavam de aventureiro.
Hoje acredito ter tudo que preciso, minha cabana, alguns antigos cigarros restantes e minha companhia, tudo o mais que me for necessário a natureza é capaz de me ceder, sem muitas “coisas”, somente o que é realmente importante o que realmente tem significado.
Hoje me chamam de louco.
Poucas pessoas costumam vir até aqui, ainda bem. Porém, inevitavelmente atraiu corriqueiramente algumas visitas indesejadas, pessoas, muitas que insistem em me dizer que me faltam as palavras que sumiram junto ao corpo e a mente jovem que um dia cheguei a ter.
Uma mulher colhendo frutos me diz que eu não tenho amor. Não sei o que é o amor.
Um caçador questiona se não tenho saudades. Não faço a mínima noção do que seja saudades.
Um filho da puta vem bater em minha porta só para dizer que não tenho culhões, expulso a bicudas o desgraçado, sei muito bem o que são culhões.
Um pedinte me pede caridade, outros insistem em palavras como respeito, dignidade, carinho, paixão, filhos, ajuda, uma criança pede minha amizade, não sei mais o significado de amizade.
Nada do que estas pessoas possam me dizer ou apresentar vai mudar o que penso, se posso dizer que ainda penso. Eu já me adaptei a cabana e a cabana já se adaptou a mim. Besteiras, desculpas, sou apenas um velho querendo passar o pouco que lhe resta consigo mesmo, sem companhias, sem amizades, sem amor, apenas eu.
A verdade é que nada disso me interessa, tenho noção que já tive um pouco disso tudo e abri mão quando decidi me excluir do mundo a procura de uma única palavra, palavra esta que agora conheço muito bem. Palavra esta que na simples opinião deste pobre velho vocês nunca vão conhecer.
Paz.